Mar 27, 2009

Ocupações contra a depressão (económica?)

Fotografia

Nov 11, 2008

Como pode uma mão invisível esbofetear visivelmente?!

O problema de liquidez dos bancos é tão simples como o seguinte:

Os governos cortam as verbas para a educação e fomentam uma integração social, através do facilitamento da progressão escolar (será que o mercado irá reajustar esta futura mão-de-obra? - é triste ver como esta lógica económica já contaminou a educação, como se educa para esse fim subordinado ao mercado. [já agora será que devo escrever mercado com maiúscula? será que, deus meu, isso já se consubstâncializou metafísicamente numa entidade, qual Deus?! será que é inevitável?]). Os meninos tornam-se adultos e altamente deficientes na interpretação do mundo que os rodeia, formando um tecido social i/eminentemente aderente às opiniões gregárias e mediáticas. São alvo preferencial das campanhas agressivas, de pessoas muito polidas, que apelam ao consumo desenfreado. Então adquirem os créditos que os bancos dão ao desbarato para tudo e mais alguma coisa. Os meninos apercebem-se agora que o prazer que tiram dos bens adquiridos não compensa o desprazer que sentem agora da sua vida se reduzir à escravidão das dívidas (ou porque simplesmente se sentem enganados pela sua volubilidade, ou porque até para comer têm que pedir emprestado, ou porque culpam os outros, ou porque esgotaram a sua capacidade dos seus rendimentos...). Deixam de pagar os seus créditos. Os bancos nesta altura ficam com grandes activos pela quantidade de dinheiro que emprestaram e pelos juros que poderiam vir a amealhar, mas são na maior parte activos insolúveis. Ou seja, porque as dívidas deixaram de ser pagas não conseguem reaver o dinheiro emprestado sequer, quanto mais os juros. Penhoram os bens que restam ao devedor para tentarem reaver parte dos seus activos, mas quando a maior parte do mercado está neste estado, não há procura para esses bens (habitação principalmente), não se consegue vende-los para os transformar em dinheiro novamente; para além disso o valor monetário desses bens desce, e na maior parte dos casos abaixo do valor inicialmente emprestado.

[a resposta ao título, pois claro é uma resposta invisível, está nas entrelinhas dos dedos do texto]

Mar 6, 2007

Versos para um poema da minha vida #2

i was waiting for youi was standing aroundi was getting olderi was going downif you always get up late you'll never be on timeif you always make itafter workafter workoh the day never comesand you stand up waiting on�br>i saw you down therei know you were tiredi saw youyou looked like a swimmerall right i wanna be with youall the timewhy can't you satisfy�br>you look goodbut you smell badyou're the best i...if you always get up late you'll never gonna be on timex2 and thats a shamecause i like youi never see you

Broken Social Scene, Swimmers, 2005.

Incontornável: se acordar tarde, nunca chegarei a tempo.

Mar 3, 2007

Versos para um poema da minha vida #1

Os idiotas são quem vive mais perto do desejo.

Feb 25, 2007

Intentos do diabo #7

— É mais fácil viver que suicidar.

Feb 23, 2007

Cinememória




Não encontrei tanto prazer no cinema nos últimos anos como quando vi este filme, Sideways. E esta cena é, com certeza, um dos momentos altos do filme e do cinema nos últimos 3 anos. É a cena em que Miles, depois de ver o contentamento das pessoas que o rodearam, como a sua ex-mulher, grávida do novo namorado, corre para casa e finalmente se decide abir o seu Chateau Cheval Blanc de 1961. Guardava-a há uma caterva de anos, à espera de uma ocasião especial, dizia ele, pois que estas merecem sempre também um vinho especial. Mas Miles abre o seu requintado vinho, imagine-se, num restaurante de fast-food, sem pompa nem circunstância, sem opíparas salvas de honra; empurrando bocados de hamburger pelo fole abaixo. A não ser a circunstância antitética da vida, do quotidiano: nada é assim tão sério, nem nada é assim tão poético. E, melancolicamente, faz esta simples descoberta, ou converte-se a esta ideia mais de acordo com o (seu?) mundo, afastando o drama que absorvia a sua existência (bebendo a garrafa guardada de vinho que o simbolizava), depois de ver as altas espectativas que mantinha serem defraudadas.

P.S.: Não sou um fã de Scorsese. E há muito que já não tenho pachorra para histórias entre-cruzadas, forma gasta, como em Babel, que também não vi (não vale o dinheiro). Já fui ver As Cartas de Iwo Jima e apesar de ser um bom filme não é, de longe, aquilo que vimos em Million Dollar Baby; e realização por realização, história por história, prefiro O Resgate do Soldado Ryan.

Feb 17, 2007

Pequeno-almoço com...

Au Revoir Simone, Night Majestic, The Bird of Music, 2007.

Descobri há uns meses, depois de ter feito uma pesquisa acerca de Strawberry Switchblade (não perguntem de onde), de quem o AMG dizia semelhante a ARS. A diferença muito subtil está na decadência dos anos 80 de SS (cf. Since Yesterday) e a sofisticação de ARS — sempre desejei ser crítico só para poder usar a palavra 'sofisticação' mais vezes; e até tem ar de ser auto-lógica.

Ainda, para comprovar, The Disco Song, ARS, Verses of Comfort, Assurance & Salvation, 2006.

Feb 15, 2007

Pequeno-almoço com...

Joanna Newsom, Bridges and Balloons, 2004.

We sailed away on a winter's day
With fate as malleable as clay
But ships are fallible, I say
And the nautical, like all things, fades

Feb 10, 2007

Maré alta

Aproveitemos o fôlego e venha já de seguida o referendo à eutanásia.

Feb 7, 2007

Luz de encontro ao "Nevoeiro"

Foto: "Nevoeiro", Carlos Teixeira


Hoje, esperei estática até à invisibilidade, perdida no nevoeiro da lembrança vazia,
daquilo que sempre desejei. A ausência das memórias que não mais nascerão. A nudez
dos frutos que não se deram. Hoje, os últimos dias, os últimos outonos. Nem
um recostar, nem um abraço, ou a despedia de um olhar; nem uma brisa que
acenda o cheiro do viço que outrora deixaste.

Versos para um poema da minha vida ##

Às vezes gostava de me sentir como me sinto os outros: não os sentindo.

Feb 4, 2007

Argumentos adaptados

"Um Estado de direito democrático, como o português, não pode, em circunstância alguma, atentar contra a tristeza das pessoas. Os portugueses são tristes, com todo o direito a sê-lo. Para o diabo aqueles que desdenham alegremente do fado nacional [lisboeta]. Provinciano de quem se aventura pela Europa cosmopolita em busca de tristes ilusões: a alegria.

Um Estado laico, ainda que existisse uma religião da alegria, e esta fosse professada pela maioria dos cidadãos, não poderia por em causa a liberdade individual que cada um tem em expressar a sua tristeza em locais públicos. Não está provado que as lágrimas vertidas publicamente possam causar depressões nas restantes pessoas. O meu avô era triste e viveu até aos 90 anos.

É, também, falsa a ideia de que há alegres clandestinos em Portugal. O que há, isso sim, é um número cada vez maior de pessoas que procura, aberta e legalmente, a tristeza em Portugal. Provenientes na sua maioria do leste, viajam por cima de toda uma Europa alegre e eufórica, para virem à procura de oportunidades de serem um pouco mais tristes, encontrando, aqui, um lugar onde as pessoas os recebem de braços abertos, mas de lágrimas nos olhos; muitos não hesitam em trazer as famílias, pois acreditam que aqui serão mais tristemente felizes.

O que contribui deveras para esta situação é o aumento dos impostos nos últimos anos, que tem fomentado a imigração e saúde mental/emocional dos portugueses; que vêem com bons olhos o crescimento bruto da tristeza gerado directamente por estas medidas; levando-os a acreditar num futuro cada vez mais tristonho para as suas vidas e gerações vindouras, através deste desenvolvimento sustentável."

Dec 15, 2006

Questão

Começo: Um homem da plebe cometeu um hediondo crime… Não. Isso é que não pode ser. Não temos verba suficiente para levarmos a cabo todo o processo de caracterização, que envolveria tal cenário. Se se dispusesse a dar o adjectivo ao homem e a deixar o crime em branco, talvez nos pudéssemos aproximar um pouco mais da resolução deste texto. Meu caro, o melhor, nestes casos, é deixar que as raízes maléficas do leitor proliferem insidiosamente e se apropriem do que é seu [de quem?]. Afinal, que queremos nós? Tecer com sangue o leito nupcial das aranhas? O leito da nossa morte? Elas perseguem-nos no horizonte de um fim, de um sentido, linha a linha, devorando todas as letras e palavras, as entranhas da nossa alma [isso é verdade]. Digo-lhe: a limitação da verba faz a economia do verbo; ponha-o no condicional, puxe o leitor para dentro do texto e deixe que tome as rédeas da acção pela sua imaginação; deixe-o construir o filme, engane-o, e faça-o pensar que é seu [de quem?]. Não deixe que ele nos trame no nosso próprio tear. Enredemo-lo nós, aqui. Façamos ar de inocentes e apresentemos um círculo linear, um novelo desenrolado de uma história delineada por uma recta labiríntica que comece apenas, e tenha a condição de na parte do seu princípio estar já dado o todo do seu fim. Ai! E como eu então seria livre! Peço-lhe, uma vez mais, que reconsidere. Ser pobre, como a origem indica, custa, nestes casos, tanto como ser rico. Mas associar um homem da minha condição a um crime, para mais hediondo, é uma sacanice; mais: uma pulhice! principalmente quando o adjectivo aparece idealmente antes do crime, como se ele tivesse sido premeditado. Um homem que nada tem, tem tudo, bastando para isso pensar no suicídio ou no homicídio do seu contrário, mas nem esse tipo de liberdade mesquinha eu a tenho. Não quero a heroicidade trágica; você sabe muito bem que uma pessoa como eu não tem maneira alguma de fugir ao seu destino. Foi você quem me premeditou, quem me incriminou.
Vamos lá, Sr. Antunes [talvez lhe mude o nome; é muito polido, muito político; é um nome de contabilista, nada adequado a uma situação deste tipo] acalmar. Sente-se, respire fundo. E diga-me lá, afinal, o que é que quer que eu faça da sua vida?

Dec 11, 2006

Intentos do Diabo #6

─ I haunt you so bad!...

Nov 20, 2006

Dual memory sour

Tenho uma memória má para as situações ridículas e patéticas que monto para mim mesmo (é curioso como alguém ingenuamente pode soçobrar às suas próprias mãos; precipitadamente será, talvez, a palavra correcta): se chegar a esqueçe-las, custar-me-ão muito tempo. Pelo contrário, tenho uma boa memória para aquilo que me é profundamente desinteressante: já não me lembro delas no momento seguinte.

Nov 8, 2006

Intentos do Diabo #5

— Não tenho ordens para mudar o mundo.

Nov 6, 2006

Intentos do Diabo #4 (possível tira de BD de um qualquer jornal)

— O analfabetismo é coisa do passado.
— De facto, sempre existe progresso em Portugal!!!
— Agora o que temos é a iliteracia.

Nov 4, 2006

Um sofisma e uma demagogia

É delicioso ver o lugar-comum da recusa preliminar, que atravessa um qualquer discurso político, do cepticismo (acepção vulgar). Não interessa saber se existe alguma pertinência nesse cepticismo. O que interessa é que esse tipo de atitude é por si só um entrave ao progresso, às acções, a quem quer fazer alguma coisa e mudar aquilo que é actual (mesmo o que está bem, porque o que interessa é mostrar resultados concretos ['betão' em inglês (piada!)]. Ademais, fica sempre bem, principalmente em tv, e até ganha assistência, atacar os interlocutores, dando a ideia, mais ou menos imediata, de quem é céptico é retrogado, não é "moderno" e "progressivo". É o que mais desgosto. O cepticismo implica um pensamento, implica mediação racional, uma crítica fundamentada; ninguém é céptico porque sim, ao contrário da adesão. É também por isto que eu acho essa altivez arrogante do progresso tão reles. É do senso-comum achar que o progresso é andar para a frente, quando muitas vezes é no sentido oposto, ou é não andar de todo, se é que poderá haver alguma coisa chamada progresso.

Nov 3, 2006

Pequeno-almoço com...

dEUS, Instant Street, 1999.

Oct 29, 2006

Ex-pretexto de uma piada esquecida

Existe, agora, a proliferação fácil (como sempre, quando se fala de massas) da ideia e, subjecente, argumento de que o que importa e vale é o que é essencial (mesmo sem se saber do que se trata quando se invoca o conceito de essencial, ou do que é no fim, essencial). Há a ideia muito despudorada, muito inovadora, ousada, vanguardista e "metro-social" (perdoem-me se não faço o género de pessoas que pode usar estes termos tão metro-eruditos... ai! outra vez) de que a poligamia respeita mais aquela que é a essência do homem do que a monogamia. Pois, presume-me, que o estado natural do homem é a infedilidade; que só se define como infedilidade devido às amarras, preceitos anti-naturais como a monogamia, cultivados até hoje. Que não há aquilo a que se diz cara-metade. E mais: que a prova disso mesmo é existiram tantas infedilidades.
Pois é! O que se esquece é que a haver uma essência ela provavelmente se caracterizará, também, pelo carácter anti-natural do homem. A sua incessante mania de modificar a natureza, de criar ferramentas e instrumentos (talvez seja esta a sua única condição essencial ou ontológica). A prova seria da mesma graduação. Não que fossem tão válidas uma quanto a outra, mas tão-somente inválidas. Andar a pé presume-se que seja natural, mas andar de carro, embora anti-natural, não implica que seja, logo anti-essencial, muito menos na forma como acabei de explicitar.
Enfim, essas pessoas não devem estar tão preocupadas em tentar perceber o que é essencial ou o que é natural e agir de acordo com isso - à luz deste tipo de argumentos. O essencial seja o que for, é algo de imutável, id est, o que quer que se faça estará sempre em concordância com a essência. E se por acaso infringir aquilo que é natural, pois bem, o homem tem-no feito desde sempre - precisamente, talvez, por razão ontológica ou essencial. Por outro lado, se se for existencialista e se se achar que a existência precede a essência, sendo esta já algo de mutável, não há lugar sequer para a justificação, porque o que quer se se faça estará imediatamente decalcado na essência.
Pergunta: por que é que há a necessidade de se justificarem (suas acções) e de se justificarem segundo o que é essencial ou natural? Não há dúvida (resposta oblíqua) que essas palavras que acabei de referir se tornaram víveres da vacuidade mental. Palavras inflacionadamente caras, usadas facilmente por prestidigitadores da inépcia, que puxam e retorcem argumentos para servirem os seus caprichos; para não mudarem, para continuarem sujeitos passivos, não tomarem posição, a não ser a favor do que é e lhes é actual (cómodo), pactuando com as maiores torpezas em seu redor. São petrificamente dados cuja solidez se encontra no sempre tácito "porque sim".
Agora reparo que a recorrência persistente destes chavões dados e aparentemente inquestionáveis, não é senão um medo, horror infindo à mudança. Os hábitos (incluindo o pensamento) que adquirimos é o que nos define. Mudarmos significa não sermos mais aquilo que somos. O eu persistente e ortodoxo. São as circunstâncias exteriores que delimitam a fronteira do ínt-imo. Então, que quero eu dizer? Que esta resistência é natural (e não essencial). E como tudo o que é natural é tão volátil quanto aquilo que não é natural, mas poderia e pode vir a ser apenas com o exercício do hábito. A ortodoxia do eu seria assim um hábito enraizado, necessário seria, então, exercitar a heterodoxia. Mas deixemos de lado este último parágrafo, quebradiço e inconsiderado.

Oct 7, 2006

Infância futura da maturidade precoce

Não interessa nunca ter lido Milan Kundera; não interessa saber se ele é pouco mais ou menos como Paulo Coelho; não interessa nunca ter lido nada de Paulo Coelho, à excepção de frases ridículas e ineptas pescadas fugazmente numa qualquer feira do livro; não interessa se a editora de Milan Kundera faz questão de sublinhar a sexta edição do livro, "uma obra-prima"; não interessa ter aprendido que qualquer livro que se diga uma obra-prima seja de facto um chasco (do castelhano chasco); não interessa se não ignoro tudo isto ou menos alguma coisa que eu não sei que desconheço; não interessa nada desta introdução, que é muito maior do que aquilo que tenho para dizer e por isso excepcional.

É claro que o que foi escrito anteriormente interessa, quanto mais não seja (mas não é) porque foi escrito, mas principalmente porque o meu capricho deixa de ser gratuito e surdo, como uma criança com birra.

Aug 9, 2006

Intentos do Diabo #3 (ambições)

— Duvido que seja correspondido o amor que tenho por mim.
— Se partisse simplesmente para a amizade...

Jul 18, 2006

Pequeno-almoço com...

Picchio Dal Pozzo, La Floricultura Di Tschinnata, 1976.

Jul 17, 2006

Serôdio

«E na sua voz domesticada em anos de obdiência ao chefe da repartição, ao orçamento, às fórmulas ("Repare que lhe peço apenas oito dias, senhor Doutor"), dizia-me que queria morrer sentindo a plenitude de quem participou das sensações saboreadas nos sonhos que ficam secretos.» Domingo à Tarde, Fernando Namora.

Jul 16, 2006

Intentos do Diabo #2

— Eu não preciso de ler assim tanto: eu vivo no campo.

Jul 12, 2006

Pequeno-almoço com...

Rooney, I'm Shakin, 2003.

Jul 9, 2006

Proémio

No proémio a O Capote de Nikolai Gógol, da Assíro e Alvim pode ler-se "O Capote é um escrito criador para um leitor com talento criador". De facto que há elogios que não podem ser menosprezados: próxima leitura.

Jul 8, 2006

Pequeno-almoço com

Lars Hollmer, Optimistbeat, 1983.

Jul 7, 2006

Impressive Google Godess

Hoje, no trabalho, levei com um estafermo. Ininterruptamente, falou-me de pinturas rupestres em V. N. Gaia, "ah! você não sabia!?"; que escreveu ao Bill Clinton, fazendo a apologia do Xanana Gusmão, e... que ele respondeu anuindo, mas que o Guterres também lá teve o seu mérito; que fez não sei o quê em Maio de 68; que convenceu o reitor com a ajuda de uma "loira de olhos azuis... muito linda!" a realização de uma festa qualquer de recepção ao novo aluno; que a ministra da educação é uma imbecil (nisto concordo), mas desculpando o secretário de Estado que foi seu (do estafermo) aluno. Eu abanava a cabeça, calado, apreciando o perfil. Que Gaia (V. N.), continuou, tem muita cultura engavetada; Gaia (V. N.) não precisa do Porto para nada, "Gaia é maior que Porto!", disse; que o imperador romano x adorava muito o Senhor da Pedra de Gulpilhares; que gaia vem do grego e que significa já não me lembro o quê e que esta deusa grega era a Deméter latina. Por fim, digo-lhe que está enganado, que nem Gaia era Deméter e que nem Deméter era latina, mas sim grega, deusa da fertilidade. Atirou-me logo com o sofisma da velhice (variação popular e barata do da autoridade), "os jovens, agora, pensam que sabem tudo"; disse-me que tinha 62 anos e muita experiência de vida; mais, que estudou "História Antiga", "Cultura Clássica" e, precisamente, "Mitologia Grega". Tinha uma camisa aos quadrados cor-de-vinho e um boné branco com a pala revirada, por causa dos óculos na ponta do nariz, em cima do bigode grisalho. Sorri e disse-lhe então que os meus conhecimentos eram, de facto, parcos nessa matéria, mas que estava seguro de mim e ele replicou com a mesma autoridade. Confessei-lhe, por último, e esta atirada como quem atira bolotas a um porco, que uma vaga ideia numa disciplina do meu primeiro ano de faculdade, que abordava a época clássica não me deixava duvidar. O espantalho do alto do seu pedestal mostrou-se interessado, dobrou-se, questionou-me acerca disso para depois dizer que conhecia os meus professores x y z e que qualquer dia passava por lá para os cumprimentar. De seguida, apresentou-se, disse-me o nome, que honestamente esqueci no segundo seguinte, estendeu-me a mão e, de forma indulgente, ofereceu-me ainda uma cópia da sua pesquisa das pinturas rupestres da internet (qualquer pessoa culta com fins sérios tem por hábito pesquisar a fundo na internet e difundir a torto e a direito os seus interesses e resultados, exceptuando todos os pedantes com intentos superficiais que teimam ir a bibliotecas e guardarem os seus passatempos só para si, deixando os outros todos em paz). Libações aos deuses! Ouvi-lo foi o regalo do dia. Só me sinto frustrado por ter sido condescendente, não ter dado a estucada final, não aceitando o seu desafio “confirme no Google”. Google, essa quase meretriz que sem ensinar, mostra quase tudo. Mas que adiantava, se o basbaque stá-fermo!

Jul 6, 2006

Pequeno-almoço com...

Bob Dylan, Like a Rolling Stone, 1965.

Jul 5, 2006

Revisitações

De sempre, os meus poemas perferidos; o de 1923 o único que deliberadamente me dei ao trabalho de memorizar. Para ser dito antes de todas as alvoradas.

LISBON REVISITED (1923)

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
Álvaro de Campos

LISBON REVISITED (1926)

Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja —
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta — até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser, Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar? Ou somos todos os
Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo — Lisboa e Tejo e tudo —,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim —
Um bocado de ti e de mim!...
Álvaro de Campos

Jul 3, 2006

Intentos do Diabo #1

Eu nunca pensei dizer isto, mas por favor tragam-me o nosso campeonatozinho nacional, os casos, as polémicas de trazer por casa, as personagens. Já não se aguenta tanta histeria, tanto arrebatamento gratuito, tanta emoção barata, tanto fumo. Começa, se calhar, a ser um caso de toxicomania, a necessidade de ficar high para esquecer as estatísticas, a maldita média europeia, a mediocridade para nós inatingível que ela nos mostra, para não ressacar no complexo de inferioridade. Por que raio é que o nosso caminho tem de ser o mesmo caminho dos outros? Por que é que se precisa sempre da opinião dos outros acerca de nós para nos sentirmos bem, como uma adolescente insegura com os rapazes? Por que é que precisamos sempre que nos aprovem, se nós lá no fundo não nos aprovamos, em primeiro lugar?
Se passar do sonho à realidade implica o tédio, esquecermos o Euro 2000, justificarmos o nosso mau jogo com o mau jogo do resto das equipas, nivelarmos a nossa prestação pela mediocridade, abdicarmos e deixarmos a nossa sorte à crença, à esperança e aos santos; se os portugueses continuam a ser portugueses eu quero ser espanhol... ou melhor francês. Eu como os franceses perfiro sem ponta de dúvida a magia do futebol às vitórias sem brilho e pelos vistos a magia francesa está de volta.
ALLEZ FRANCE!!!